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BATALHA DE LUANDA

A Batalha de Luanda

Em fevereiro, nem um mês apos a tomada de posse do Governo de Transição, tornou-se obvio que o parecia desconfiança entre os movimentos estava longe de diminuir. O poder residia, de facto, nos exércitos que cada movimento não cessava de armar. na cimeira de Nakuru, em Junho, os três reconhecem culpas, e prometem pôr fim à violência. Era mentira.

José Gomes

As forças armadas conjuntas acordadas um mês antes no Alvor não passaram de uma miragem, e os confrontos esporàdicos iniciados em Fevereiro rapidamente se transformam em renhidos combates, com milhares de mortos, ao fim dos quais, em principios de Julho, o MPLA estava sozinho em Luanda. Pelo meio, a 21 de Julho, ficou a cimeira de Nakuru, no Quénia, promovida pelo presidente Kenyatta, na qual os três movimentos juraram a pés juntos que pretendiam pôr fim à violência.

Raul M. chegara a Luanda em fins de 74. Depois de meia-duzia de anos em Argel, nos anos 60, é criado numa base da guerrilha no Congo. E é com a memoria da adolescência que recorda os combates de Luanda.

"Uma das casas onde estive era na Praia do Bispo, uma estrada marginal com vivendas. Numa dessas vivendas, havia uma sede do MPLA. Por tràs, havia um monte, e là em cima havia uma sede da FNLA. De repente, começaram a entrar em "makas". Desataram aos tiros, e tudo o que estava na rua desapareceu", conta. Vê na foto sobre a destruição da sede da FNLA pelo MPLA.

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 A BATALHA DA FNLA

Outra casa para onde depois passou ficava na Avenida Brasil, que dà para o musseque do Rangel. "Ali ao pé havia uma sede da FNLA, até era considerada uma das sedes mais importantes. Ali é que houve mesmo grandes porradas".

Os combates começaram com trocas de tiros de armas ligeiras entre a sede do MPLA e da FNLA. "Cheguei a ter 46 buracos de bala na parede do quarto. Não percebia como, morava num sexto andar. Até que um dia espreitei: eles nem sequer lavantavam a cabeça para ver onde atiravam. Levantavam a arma acima do muro e despejavam o carregador". Um dia, a FNLA montou antiaéreas no terraço do prédio, e virou-as para baixo, em direcção à sede do MPLA. "Avisaram o pessoal do prédio que era melhor ir embora, não se responsabilizavam pelo que acontecesse. E nos fomos mesmo embora, para casa de familia na baixa. Quando o MPLA descobrisse donde estavam a atirar...".

No dia seguinte, quando voltam ao sitio, o apartamento jà tinha sido atingido por um roquete. Nos dias seguintes, o prédio iria ficar completamente destruido. Nessa altura, jà os três movimentos de libertação tinham muitas forças em Luanda. A FNLA havia, desde Junho do ano anterior, mesmo antes da assinatura formal do cessar-fogo com o Exército português, metido muita gente na capital, vinda de Kinshasa. Quadros politicos e tropa. Eram conhecidos por não falarem português, penas francês com sotaque carregado, e pelo comportamento, arrogante, mais proprio de um exército de ocupação.

SABATA E PASSARÃO

Mas quem ganhou a Batalha de Luanda para o MPLA não foi a gente do mato, foi o povo dos musseques, enquadrado por ex-militares negros do Exército colonial. Em Junho de 74, cerca de nove mil militares angolanos do Exército português tinham-se manifestado publicamente, exigindo a desmobilização imediata.

"Uma das figuras paradigmàticas, uma das figuras emblemàticas, era um tipo chamado Sabata, que era um antigo ladrão do tempo colonial, mas que era muito popular nos musseques. Era uma espécie de figura mitica, porque era um individuo que fazia raides contra os da FNLA, e depois refugiava-se nos musseques. Dizia-se que andava com duas G3, de canos serrados", recorda Raul.

A FNLA também tinha o seu heroi, um vadio branco de apelido Passarão. Conta a lenda que Passarão morreu abatido por Sabata em duelo singular. "Como se tivesse parado a guerra civil, os dois encontraram-se no musseque, Sabata saca da arma, o outro estremece...".

Na verdade, não foi isso que aconteceu. De Sabata, mais tarde promovido a comandante, sabe-se que foi morto mais tarde, no 27 de Maio, em 77, durante o golpe de Nito Alves. Quanto a Passarão, diz-se que terà morrido em combate quando a FNLA foi empurrada até à fronteira.

Na batalha por Luanda o MPLA perde vàrios herois populares. "Outra das vitimas da guerra foi um que eu tinha conhecido no Congo, o Valodia. O Valodia morreu durante um assalto a sede da Revolta de Leste, do Chipenda". Chipenda é expulso de Luanda logo em Fevereiro, e alia-se à FNLA.

Morreu Nelito Soares, um dos autores do desvio de um avião que voava de Luanda para o Congo, nos ùltimos anos da década de 60. E morto durante uma - a ùnica? - operação de comandos portugueses em Vila Alice, bastião do MPLA. Vàrios portugueses, como passou a tornar-se comum, tinham sido raptados e levados para Vila Alice. O Exército português exigiu a libertação dos reféns e a entrega dos responsàveis pela sequestro. Os responsàveis locais do MPLA fizeram orelhas moucas, e foi ordenada a intervenção dos comandos.

Nelito Soares, que nessa altura saida da sede do MPLA para negociar, é abatido, e os comandos fazeram uma razia;

UMA COISA BANAL

 Ao fim de algum tempo, a guerra em Luanda era uma coisa que se tinha tornado normal. "Para nos, que eramos miudos, aquilo jà era banal. As três, quatro da manhâ, iamos para a bicha comprar o pão. As vezes, rebentava tiroteio, e toda a gente fugia. Mas depois havia discussões por causa do lugar em que estavam na bicha, e morria mais gente nessa discussão que propriamente nos combates. A guerra era uma coisa tão banal que a gente brincava aos beligerantes. Construiamos umas armas, em madeira, e andàvamos para ali a disparar".

Mais. "A gente até ficava contente com a guerra civil, porque depois não havia aulas. Uma vez, à frente do colégio onde eu andava, aparaceu uma manifestação do pessoal dos musseques... Ficou tudo tão aflito que as aulas tiveram de acabar e nos pronto, ficàmos todos contentes". As tantas, começou a faltar comida em Luanda. "No sitio onde eu estava, não houve grandes carências. A gente ainda apanhava pão, mas tinhamos de fazer bichas de madrugada. E depois as pessoas tinham os seus esquemas, as suas relações... A mim nunca faltou de comer", recorda Raul.

"Por isso, para nos, miudos, a guerra civil não foi aquela coisa hedionda... So ouviamos certos relatos, de gente que era morta de maneira bàrbara, dizia-se que a FNLA matava com certos requintes, praticava antropofagia".

"Na Batalha da FNLA, aquela na sede na Avenida Brasil, contava-se de boca em boca, foi um grande acontecimento. Dizia-se que descobriram là corações".

E sabia-se também da caça ao homem, do racismo. "FNLA caçava tudo, quimbundos, mas sobretudo mulatos. Lembro-me que houve um mulato, que apareceu numa das casas onde eu estava, que tinha vindo là de Carmona, do Uige, e tinha sido apanhado. Levou porrada, e a FNLA, o soldado, olhou para ele e disse-lhe: Seu mulato, passarinho sem ninho, seu filho da p... E havia também aquele ditado: o branco vai embora de barco ou de avião, o mulato vai a nado".

UMA ULTIMA MENTIRA

A 11 de Junho, Savimbi, que entrara em Luanda a 25 de Abril de 75, vê o pequeno quartel da UNITA na capital angolana ser atacado pelas FPLAS. A situação deteriora-se tão seriamente que o presidente do Quénia, Jomo Kenyatta, convoca para Nakuru uma cimeira de emergência. Apos quase uma semana de discussões - para as quais Portugal não é convidado -, a 21 de Junho, os três movimentos fazem uma auotocritica, reconhecem etr dificultado a actuação do Governo de Transição, ter apelado ao tribalismo e ao racismo, armado a população civil, e comprometem-se a acabar com a violência e a intimidação, a integrar os seus exércitos numa força armada ùnica e a desarmar os civis.

Poucos dias depois, a 9 de Julho, apos três semanas de violentos combates, a FNLA é expulsa de Luanda, e Savimbi pede protecção ao exército português e ordena aos seus apoiantes que deixem a capital.

Raul M. tem depois uma ùltima recordação. "Quando jà tinha mudado para uma casa no Bairro Salazar, lembro-me que houve uma altura em que so se ouvia martelar: pà, pà, pà". E do porto, cheio de caixotes.

AFRICA DO SUL AVANCOU A PEDIDO DA UNITA E DA FNLA

O general Constand Viljoen, reformado desde 1985, jà foi o "heroi da Guerra de Angola" entre os soldados da Africa do Sul do antigo regime. Mas a sua personalidade não é a de um militarista no sentido convencional e o titulo assenta-lhe mal. Todavia, aceitou com prazer recordar e explicar os porquês teoricos da sua campanha de Angola.

Maria de Lourdes Torcato, correspondente em Joanesburgo

"Na década de 60 começaram as guerras em Africa pela descolonização. Foi uma pena que todos os movimentos de libertação se virassem para a URSS, para pedir assistência, treino e armas. Acreditavam que a melhor maneira de se libertarem era a guerra" - diz Viljoen. "E a URSS estava na fase de explandir a ideologia comunista na Africa Austral. isto condicionou tudo e foi pena porque se podiam ter encontrado soluções e as coisas não terem tomado o caminho que tomaram"- diz Viljoen, comedido nas palavras, referindo-se à guerra de três décadas que rodeou a descolonização em Angola e fez do povo angolano o mais sofredor da historia moderna.

Mas havia alternativas, na altura, para os povos colonizados em Africa? "Infelizmente, por causa das nossas relações com os colonialistas ingleses e portugueses, a Africa do Sul adquiriu a reputação de ser uma espécie da nação semi-colonialista", diz Viljoen. Para o general, a Africa do Sul poderia ter sido aliado dos movimentos e emancipalistas na Africa Austral. Sem a aliança com a URSS, a independência aconteceria "sem guerra" - acredita o ex-general, que virou politico. "Qualquer outra solução que não fosse a da guerra teria sido melhor".

"A independência de Angola foi a 11 de Novembro de 1975. Antes dessa data, com a assistência dos cubanos e da logistica soviética, o MPLA tinha capturado vastas porções do pais anteriormente controlados pela FNLA e pela UNITA. Foram estes que nos contactaram e como comandante general das operações recebi a missão de dar assistência à UNITA e à FNLA e, mais tarde, ao grupo de Daniel Chipenda, para retomarem as suas àreas tradicionais, de modo a que, a 11 de Novembro, a Organização de Unidade Africana estivesse em posição de obrigar à formação de um Governo de Unidade Nacional em Angola" -  é como o general vê os acontecimentos de 75, que levaram uma poderosa coluna militar sul-africana em marcha desde o Cunene até Cela, a pouco mais de 100 quilometros a sul de Luanda.

"Instalar um governo de unidade nacional, em Luanda, era o nosso ùnico objectivo, mas a OUA não conseguiu chegar a essa decisão" -insiste o general.

Pois a seguir na esfera

 

    

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Dernière mise à jour de cette rubrique le 25/04/2008
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